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O desafio da empatia liderante




A questão fundamental, neste Dia da Mulher em 2026 será se, derrubado os muros físicos que separavam raparigas e rapazes, a escola e a educação desenvolvem em mulheres e homens as características desejáveis para sermos capazes de superar os tremendos desafios com que sempre nos depararemos em cada momento da história?


Este ano não comprei rosas à minha mulher neste dia 8 de março de 2026. Com o tempo reservei este ritual para o aniversário do nosso encontro, há 31 anos.


Yuval Harari um historiador israelita que se dedicou à macro-história e, de certo forma à filosofia, questiona-se e não consegue explicar por que razão as mulheres sempre foram colocadas na sombra de quase todas as civilizações. Se nos confrontos militares, poder-se-á argumentar à volta da força física, no plano estritamente político não há razão nenhuma para que as mulheres não tenham destaque, já que não é a força física que está em causa, na gestão política das sociedades.


E mesmo a força física tem muito que se lhe diga. No nosso imaginário, na história ocidental, a literatura e o cinema encarregaram-se de difundir imagens femininas frágeis, delicadas, doces e quase sempre erotizadas. No filme "Os Dez Mandamentos" de Cecil B. DeMille, um filme de 1956, o clima aprazível do Egipto era pretexto para roupagens femininas etéreas que cobriam o corpo de uma brancura diáfana. Portanto, houve muitas gerações marcada pela equivalência entre mulher e fraqueza. Felizmente que os ginásios, em pleno séc. XXI, um pouco por todo o Portugal, estão cheios de mulheres, que sem perderam uma gota da sua feminidade, dariam de facilmente uma coça de pancadaria a muitos homens enfezados, apesar das estatística do desporto darem conta de uma alegada superioridade muscular dos homens.


Entretanto e infelizmente, as estatística dão conta do número de assassinatos de mulheres, vítimas de violência doméstica. Em 2024 formam 12.681 vítimas apoiadas pela APAV em Portugal. Quanto aos assassinatos rondam à volta de 30 mortes por ano.


Parece que a direita gosta de recorrer a estes dados para insistir no estatuto de fragilidade da mulher e da necessidade de ser sempre protegida. Esta estratégia misógina, patente em alguns países europeus, é perversa pois serve de ponte para negar qualquer hipótese paridade de género. Associada à quase obrigatoriedade de remeter a mulher para a qualidade de reprodutora familiar, é a fórmula perfeita para manter a mulher para um estatuto de menoridade cívica e social.


Uma breve olhar para a Islândia diz-nos da falta de justificação desta tese. Naquele país no norte do planeta, as mulheres pescam, pelo menos, desde o século XVII. Não sem alguma luta e confronto. É entre 1910 e 1960 que se incrementa a luta das mulheres na indústria pesqueira. O Síldarstúlkur, as Mulheres do Arenque, foi um movimento social que lutou pela igualdade de salário e condições de trabalho na indústria pesqueira.


Em 2023 uma greve convocada pela mulheres na Islândia teve o apoio da primeira-ministra, Katrin Jakobsdóttir. A luta pela paridade continua, também na Islândia, apesar de, neste país, haver os melhores indicadores de igualdade de género. O voto feminino foi alcançado em 1915 e presidência da república foi entregue a uma mulher, Vigdís Finnbogadóttir em 1975, a primeira mulher eleita em qualquer país democrático.


Mas a questão mais interessante que se coloca foi lançada em 2026, por Sofia Ramalho, Bastonária dos Psicólogos desde 2025. Poderá o modo de ser feminino ter um impacto importante nas lideranças políticas e no mundo? Poderá ser vantajoso uma mulher à frente das Nações Unidas, como já alvitrou António Guterres?


Uma análise cuidada e científica do perfil das lideranças femininas em processos de paz apontam para maior capacidade de diálogo e negociação e uma preocupação pela harmonização dos interesses e articulação dos problemas com que se defronta a humanidade. Criação de consensos, através de uma maior escuta ativa parecem ser um dos traços do feminino nestes contextos. E, concordo com Sofia Ramalho, não é apenas uma questão de representatividade, é uma questão de potencial que a visão feminina pode trazer para superar desafios. A masculinidade viril e guerreira está a mostrar que o seu modo de agir é a receita para a desgraça que atravessa o Médio Oriente no momento em que escrevemos.


Mas atenção: se agarrarmos em 50 homens e 50 mulheres de 75 anos num contexto concreto como o de Portugal, constatamos estatisticamente um dado perfil masculino que se distingue profundamente, de um perfil feminino. Mas, e se analisarmos 50 homens e 50 mulheres de 25 anos, nascido no mesmo lugar geográfico, nascido com 50 anos de diferença? Decerto que o "masculino" e o "feminino" estatisticamente serão diferentes do grupo de gente mais velha. Ou seja, o masculino e o feminino não são apenas questões estritamente deterministicamente genéticas. Na verdade, se há o genital e o genético há também o endócrino, tudo dentro do pacote biológico. Mas há sobretudo o social e, naquilo que nos interessa para o futuro, há também o educacional.


Até que ponto uma educação que vise desenvolver em rapazes e raparigas o verdadeiro potencial humano de empatia, independentemente do género, pode salvar vida nas próximas gerações? Uma educação adequada e consciente, pode salvar vidas em contexto de violência doméstica? Uma educação igualmente adequada pode vir a acabar com o número assustador de vítimas de conflitos militares?


O que seria uma mulher na presidência do EUA? Ou à frente da China? Ou como líder do Irão? Diríamos que estes países não parecem recetivos a lideranças femininas. Na Europa temos Giorgia Moloni como primeira ministra em Itália, Roberta Metsola à frente do Parlamento Europeu e Ursula Von der Leyen na Comissão Europeia. Já tivemos Margaret Thatcher e Angela Merkel. Mas há uma questão interessante: em todas esta mulheres reconhecemos "capacidade de diálogo e negociação e uma preocupação pela harmonização dos interesses e articulação dos problemas com que se defronta a humanidade"?


Quem nasceu em Portugal até aos anos 70, frequentou escola com nítida divisão de géneros: turmas femininas de uma lado e turmas masculinas do outro. Na minha escola do 3º ciclo, inaugurada em 1972, havia um muro amarelo que dividia os rapazes das raparigas. Em 75 as turmas tornaram-se mistas, mas o muro amarelo persistiu. Quem visitar hoje a minha velha escola constata que o muro já não existe. A questão fundamental, neste Dia da Mulher em 2026 será se, derrubado os muros físicos que separavam raparigas e rapazes, a escola e a educação desenvolvem em mulheres e homens as características desejáveis para sermos capazes de superar os tremendos desafios com que sempre nos depararemos em cada momento da história? Ou seja, poderá a educação formar lideranças mais empáticas e mais justas?


Sim, porque a vida é um desafio de constante reajustamento.


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