top of page

Um presidente, um de nós

Atualizado: 6 de abr.

Palácio de Belém, com origens no século XVI, atual sede da Presidência da República de Portugal.


Depois de tantas estrelas brilhantes na Presidência da República, será que vem agora um de nós, afetuoso, sólido, de poucas palavras? Dirão as gentes de Penamacor, terra natal do atual presidente: um beirão, seja lá o que isso for.


Entraram os quatro de mão dada no Palácio de Belém. Mostram que são uma família. Os funcionários da Presidência da República aplaudem. O país comove-se e sente que faz sentido o novo presidente António José Seguro entrar pela primeira vez neste velho palácio com origens no séc. XVI, acompanhado pela mulher e pelos dois filhos adolescentes. O azul está presente e domina com o seu simbolismo. Gravatas azuis e vestidos azuis.


O novo Presidente da República portuguesa entra no Palácio de Belém, acompanhado pela esposa e pelos filhos.
O novo Presidente da República portuguesa entra no Palácio de Belém, acompanhado pela esposa e pelos filhos.

Foi a 9 de Março que tomou posse este agora novo presidente da república portuguesa: o sexto eleito em eleições livres e universais. A partir de 1986, 9 de Março tem sido sempre a data de tomada de posse da mais importante figura da república portuguesa.



Um lastro de afetividade


A posse teve lugar em sessão solene na Assembleia da República. Durante longos 25 minutos, o secretário da Assembleia teve de ler a ata que dá conta dos resultados eleitorais. Foi fastidioso, com as altas figuras da república de alguns países estrangeiros a recorrem às doses de paciência suplementar que envolvem o exercícios protocolar das suas funções. O jovem secretário, teve de interromper a leitura para beber um cole de água. No final, não será do protocolo, mas houve uma efusiva salva de palma. Ao heróico secretário de boca seca ou aos 68% de votos alcançados pelo novo presidente da república?


O protocolo, agora sim, preconiza que no início da sessão, o antigo presidente ainda em funções, Marcelo Rebelo de Sousa, esteja sentado à direita do presidente da Assembleia da República. Após a tomada de posse o recém empossado há uma troca de lugar com o anterior presidente, sob uma longa salva de palmas. Agora é António José Seguro que se senta à direita. Tal como o Filho da Santíssima Trindade se senta à direita de Deus Pai.

O momento de troca de lugar entre os dois Presidentes da República, definiu o perfil do novo presidente: ocorreu um longo abraço apertado e comovido entre os dois. António José Seguro, que se adivinha vir a ser muito diferente de Marcelo Rebelo de Sousa mostrava alguma comoção e uma enorme afetividade no rosto contido. Rebelo de Sousa pareceu quase atrapalhado pelo gesto de afetividade do novo presidente.


Nesta tomada de posse, veio o momento dedicado aos cumprimentos a uma longa fila de convidados. Seguro, sempre contido na sua postura, mostrou muitas vezes uma comoção no rosto. Comoção no olhar, no gesto, no abraço e na ternura que dirigia a alguns dos presentes, adivinhando-se uma relação de maior cumplicidade, talvez de muitos anos, com alguns dos convidados que a quem cumprimentava.



A segurança do peso das instituições


Os rituais sucederam-se uns atrás dos outros. A longa leitura da ata, os discursos do presidente da assembleia e depois do novo presidente da república, a salva de 21 tiros disparados à beira do tejo, a parada e os desfiles militares, o hino nacional. Tudo transmitido em direto por meia dúzia de canais, da televisão e da rádio, com diversos jornalistas e comentadores.


Um homem de cerca de 70 anos, dizia ser natural de Penamacor, terra natal de António José Seguro. A viver em Lisboa desde há muitos anos, veio apreciar os desfiles militares. Gostou muito. Pergunto-me o que lhe terá agradado. O peso do formalismo? Transmitirão todos estes rituais uma certa ideia de segurança ao cidadão comum? A ideia de que há uma organização que envolve grandes instituições nacionais como as Forças Armadas, a Assembleia ou a Presidência da República darão a qualquer cidadão a sensação de solidez, de força, de perenidade em relação ao futuro? Vai-se para casa mais descansado? Há organizações que mantém tudo no lugar?


E ao mesmo tempo esta instituições, devidamente organizadas são feitas de pessoas que sentem, que se emocionam, que se ligam umas às outras.


Marcelo Rebelo de Sousa, nos momentos antes da cerimónia, lembrou-se que precisava de fazer compras numa pequena mercearia. A televisão seguiu-lhe todos os gestos. As figuras do Estado, afinal também comem batatas fritas, coadjuvadas nos seus gestos por uma militar que recolhe as compras depois de pagas.


Depois de cumprimentar todos os convidados, o novo presidente dirigiu-se ao Mosteiro dos Jerónimos para saudar o nosso maior poeta oficial: Camões. Instituições, Estado e agora História e Cultura.


Junto ao túmulo de Camões, recanto do Mosteiro dos Jerónimos, António José Seguro ajeita uma coroa de flores, como quem diz, fui eu que mandei comprar. Depois permanece em silêncio, de pé, numa homenagem silenciosa à História e à obra que dá conta da grande aventura portuguesa do séc. XV. Mais um momento da sempre constante solenidade que deve marcar os gestos institucionais. Sub-repticiamente, um olhar à Igreja Católica, outra instituição sempre sempre na nossa História, no nosso quotidiano e como tal no nosso imaginário.



Um de nós


Fiz parte dos 94% que não acreditavam que António José Seguro teria hipóteses de chegar, sequer à segunda volta das eleições presidenciais, quando as sondagens davam apenas 6% a este candidato.


O momento alto foram os debates televisivos em que ficou patente o estilo, a postura ou algumas ideias de cada uma dos candidatos.


Seguro diferenciou-se pela serenidade. Percebeu, antes de todos, que deveria adotar logo de imediato uma postura de estado, recatado, sereno, talvez pouco entusiasmante, como muito comentadores deram conta.


Para muitos que vivem estas primeiras décadas do séc. XXI, a presidência da república é um lugar de liderança. E liderar parecer ser, emitir uma qualquer força, gritada aos quatro ventos. Há todo um imaginário que diz, também aos quatro ventos que o líder é alguém que grita, esbraceja, lança ideias inovadoras, leva toda a gente atrás. Zanga-se, emociona-se e arrasta multidões. É alguém diferente de nós, um semideus, um herói amado e venerado, ou no mínimo um Ulisses, com todas as fragilidades do herói grego.



O anti-líder


Surpreendentemente, António José Seguro, parecia ser o anti-líder, pacato. No dia das eleições, Seguro saiu de casa em direção ao Centro Cultural de Congressos nas Caldas da Rainha, e mostrou-se preocupado com os jornalistas, recomendando que "não se constipem".

Seguro foi projetando, para quem não o conhecia bem a imagem do homem simples, o filho amado, o genro preferido, o amigo fiel, o companheiro sempre ao nosso lado. A biografia deste homem sereno, mostra ser alguém organizado e com longa experiência de campanhas eleitorais. O seu currículo afinal é recheado das mais diversas experiências políticas em Portugal, como líder da Juventude Socialista ou como ministro. Mas também em muitas instituições europeias. E em 2011, foi líder do Partido Socialista, um dos maiores partidos políticos portugueses.


Foi em 2014 derrotado por António Costa nas eleições para a liderança do PS e desde aí retirou-se. Confesso que considerei que este afastamento pouco digno por parte de um político, mas provavelmente enganei-me.


Este homem, agora na Presidência da República, arrebanhou 68% dos votos dos portugueses. E parece ser um de nós.


Olhando para os presidente da república, cujos mandatos acompanhei, verifico que todos exibiam uma qualquer excecionalidade. Ramalho Eanes era o militar que venceu o 25 de Novembro, com uma imagem que ficou na história, quando subiu para cima de uma viatura: o herói abnegado. Mário Soares era o político com uma longa experiência e intuição: uma estrela que brilhava. Jorge Sampaio, o político que não escondia a comoção e chorava em público: o humanista. Cavaco Silva era o homem sério, acima de qualquer suspeita: o austero. Marcelo Rebelo de Sousa, o catedrático de Cascais: gente fina.


É preciso lembrar que, os deputados da Constituinte, em 1976, com base na experiência de alguns séculos de constitucionalismo, definiram um papel para o presidente da república portuguesa, que não se enquadra no protagonismo dos presidencialismos de outras paragens e fundados noutros tempos.


A escolha de Seguro pelos portugueses em pleno momento de convulsão planetária, faz-me lembrar duas circunstâncias. A primeira é uma frase do Almirante Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro português durante 10 meses entre 1975 e 1976: "O povo é sereno".


A outra circunstância é "O Navio-Farol" um conto de Siegfried Lenz, um escritor alemão nascido em 1926. Neste conto, o comandante passa por fraco aos olhos do filho, durante um assalto ao seu navio. Mas é a calma, a ponderação e a serenidade  que salva a situação.

Depois de tantas estrelas brilhantes na Presidência da República, será que vem agora um de nós, afetuoso, sólido, de poucas palavras? Dirão as gentes de Penamacor, terra natal do atual presidente: um beirão, seja lá o que isso for.


Há que desejar-lhe as melhores energias, no desempenho do seu cargo.

A ele e à família, o nosso obrigado, desde já, pelo sacrifício que tudo isso implicará.


© Eduardo Rui Alves

Comentários


  • Vimeo ícone social
  • YouTube ícone social
LogoPessoal Rodapé Branco.png

© 2026 por Eduardo Rui Alves.

bottom of page