Colapsei esta semana
- Eduardo Rui Alves

- há 2 dias
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Parece que a capacidade de percecionar o seu trabalho como sendo importante, uma certa racionalização daquilo que é o nosso papel como professor, a obtenção de satisfação nas relações que se estabelecem no meio escolar, parecem ser fatores que fortifiquem o docente para não entrarem burnout.
Esta semana foi o colapso completo.
Tirei um dia de férias na terça-feira. Mas a cabeça continuava confusa e cansada. Os papeis do planeamento das aulas baralhava-se-me nas mãos e ao longo do escritório. E depois há um cansaço enorme no corpo. Vontade de me deitar e dormir. E dormi, longas horas, depois de me levantar às 6 da manhã. E mesmo depois do pequeno-almoço e depois do almoço.
Os 86 mil milhões de neurónios precisavam de descanso.
Não sei ao certo o que se passará com os meus neurónios nestes momentos.
Fiquei a saber que no cérebro há 16 mil milhões de neurónios, mas o cerebelo tem 69 mil milhões. Os restantes estão espalhados por outras regiões do encéfalo, encerrados dentro do crânio.
Parece que nascemos já com esta aparelhagem celular neste nosso sistema nervoso humano. Temos o maior número de neurónio do mundo animal. Praticamente, não se produzem mais neurónios ao longo da vida. O segredo está na festa constante que esta celulazinhas fazem, ligando-se e desligado umas às outras. É a plasticidade neuronal. Será assim que aprendemos e esquecemos?
Descobri um artigo numa revista brasileira da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que se dedica a apoiar a investigação científica no Brasil. Na verdade foi Suzana Herculano-Houzel, uma neurocientista nascida no Rio de Janeiro em 1972 que ajudou a desenvolver um método de contagem de neurónios, trazendo um grande contributo à perceção do número de células que compõem o cérebro. No seu blog, continua a falar de mil e uma curiosidade acerca do cérebro e daquilo que as neurociências vão descobrindo.
Sabemos que algo se acumula nos interstícios dos tecidos celulares e que só o sono pode eliminar. É que o sistema linfático não existe no encéfalo, logo a eliminação de substâncias que resultam no normal metabolismo, só durante as horas do sono são eliminadas.
As emoções e o desânimo acumulam-se e há uma terrível preguiça para tudo o que não seja ficar no sofá ou na cama. Não será grave, mas sinto que é importante parar.
Serão demasiadas substâncias vagamente nocivas que necessitam de ser eliminadas do cérebro e dos órgãos que o acompanham no interior do crânio?
No domingo emocionei-me, num encontro sobre educação em Lisboa, dedicado às manobras do atual governo para colocar os professores sobre a alçada de um instituto público. As visões mais à direita acham, em nome da melhor funcionalidade do edifício da educação em Portugal, que há que rever o tipo de vínculo jurídico do estado português com os docentes. Durante mais de duas horas, cerca de 50 professores, diagnosticaram em tom de guitarra fadista, com momentos de lamentação da situação do ensino. Houve, felizmente, momentos de apelo à luta. "Não somos vítimas, somos sujeitos", dizia alguém. Emocionei-me ao falar da esperança que há sempre, quando temos à nossa responsabilidade 44 crianças, sempre com um sorriso nos lábios, alegria de viver e uma enorme ternura, mesmo quando imaginamos os pequenos e grandes dramas pessoais e familiares que transportam, já aos 10 anos de idade.
"Não somos vítimas, somos sujeitos transformadores da sociedade" é uma frase que terá surgido, em 2021, pela voz de Tomás Máscolo, ativista trans e jornalista argentino, editor do "Izquierda Diario".
O desafio, na verdade, passa por reunir forças, para continuar a remar, a remar sempre.
Há a tentação de nos lamentarmos, um sinal de que estamos frágeis e que urge fortificarmo-nos de qualquer forma.
Esquecemo-nos que a vida, um estranho fenómeno talvez raro no Universo, é um jogo de constante reajustamento, em função de tudo o que muda à nossa volta. O primeiro passo, insisto sempre, é saber ouvir do vento, e percecionar o que se passa à nossa volta, e a partir daí manter as lutas que estão ao nosso alcance. Afinal temos a vantagem e o privilégio de dispor de 86 mil milhões de neurónios, em cerca de quilo e meio de encéfalo.
Regressei à escola e ao universo escolar, após uma pausa, ainda mais consciente dos estímulos que devo proporcionar aos meus alunos para que haja novas ligações neuronais naquelas cabecinhas. E também consciente dos condicionalismos que os faz ter dificuldades em aprender aquilo que a sociedade e o mundo insistem em ensinar.
Isso não significa não estar consciente do tremendo desafio que cada docente enfrenta. Eu tenho, no final da minha carreira menos de 50 alunos a quem leciono duas disciplina no 2º ciclo do ensino básico. Mas a maioria dos professores no ensino básico e secundário têm mais de uma centena.
O cansaço é um problema sério nas escolas, mesmo antes de abordarmos a questão mais dramática do burnout.
Em 2018 a FENTROP levou a cabo um estudo sobre o burnout dos professores. Em 2021, Ana Isabel de Bastos Mota, voltou ao assunto na sua tese de doutoramento "Burnout em Professores do Ensino Básico e Secundário: Variáveis Pessoais, Organizacionais e de Sala de Aula".
Ligeiro cansaço apenas ou uma situação grave e preocupante como o burnout?
Se o contexto escolar parece, obviamente, contribuir para desencadear um quadro grave, há também características pessoais que parecem previr que o ligeiro cansaço se torne num problema grave.
Parece que a capacidade de percecionar o seu trabalho como sendo importante, uma certa racionalização daquilo que é o nosso papel como professor, a obtenção de satisfação nas relações que se estabelecem no meio escolar, parecem ser fatores que fortifiquem o docente para não entrarem burnout.
Ouvir o vento e encontrar soluções para o levar a bom porto o importante trabalho de ensinar tudo a todos será o caminho?
LENT, R. et al. How many neurons do you have? Some dogmas of quantitative neuroscience under revision. European Journal of Neuroscience. v 35 (1). jan. 2012.
HERCULANO-HOUZEL, S.; LENT, R. Isotropic fractionator: a simple, rapid method for the quantification of total cell and neurons in the brain. Jornal of Neuroscience. v. 25(10), p. 2.518-21. 9 mar. 2005.
Mota, Ana Isabel de Bastos, Burnout em professores do ensino básico e secundário: variáveis pessoais, organizacionais e de sala de aula, Tese de Doutoramento, Universidade do Minho, 2021.
ZORZETTO, R., "Recontagem de neurônios põe em xeque ideias da neurociência", Pesquisa FAPESP 192, São Paulo, 2012.
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